Com Dilma nos EUA, Obama diz ver Brasil como ‘potência global’

Dilma afirmou que problemas com governo Obama foram superados e presidentes trocaram declarações amigáveis

Dilma afirmou que problemas com governo Obama foram superados e presidentes trocaram declarações amigáveis

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou nesta terça-feira, durante entrevista coletiva com a presidente Dilma Rousseff, que “não vê o Brasil como uma potência regional, mas (como) uma potência global”.

Obama e Dilma falaram a jornalistas após se encontrarem na Casa Branca quase dois anos depois de a brasileira cancelar uma visita aos EUA após denúncias de que havia sido espionada pelo governo americano.

Questionada sobre o episódio, a presidente afirmou que o problema havia sido superado. “De lá para cá, algumas coisas mudaram”, disse a presidente, citando declarações de Obama de que não haverá “intrusão em países amigos”.

“Eu acredito no presidente Obama e ele também me disse que, se precisasse de alguma informação não pública do Brasil, me telefonaria.”

Durante o encontro, Dilma parabenizou Obama pela reaproximação com Cuba: “É o fim da Guerra Fria e o estabelecimento de relação de qualidade (com América Latina)”, disse.

A presidente também afirmou que pretende transformar a cooperação na área de inovação em um dos “temas centrais” nas relações entre o Brasil e EUA e que o Brasil quer dobrar a corrente comercial com Estados Unidos em uma década.

Informal, Obama chamava presidente brasileira pelo primeiro nome: “Dilma, quero agradecê-la por elevar a relação bilateral a outro nível”

Obama diz querer voltar ao Brasil: “Não tive a chance de ir ao Carnaval, e o vice-presidente (Joe) Biden foi à Copa do Mundo, não eu”.

Lava Jato

Antes da entrevista, Dilma comentou as denúncias de envolvimento de dois ministros de seu governo – Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social) – no escândalo da Petrobras.

Em depoimento à Justiça, o empresário Ricardo Pessoa – preso na Operação Lava Jato – teria incluído os dois ministros na lista de 18 políticos que teriam recebido recursos provenientes de desvios na estatal.

Questionada se os dois continuariam no governo, Dilma disse que jamais nomeou ou demitiu ministros pela imprensa e que manteria a prática. “Vou aguardar toda a divulgação dos fatos.”

Ela disse que o governo não teve acesso ao depoimento de Pessoa e que há “vazamentos seletivos” na operação.

Dilma disse ainda que, segundo a investigação do Ministério Público e da Polícia Federal, “alguns funcionários da Petrobras cometeram delitos de corrupção” e só esses devem ser responsabilizados, mas não os demais trabalhadores nem o conjunto da empresa.

“A Petrobras não é uma empresa sub judice (que está em julgamento), é uma empresa em pleno uso de sua atividade”, disse a presidente, citando um prêmio que a companhia recebeu em maio por suas atividades na exploração do pré-sal.

Clima

Em uma declaração conjunta sobre mudanças climáticas divulgada nesta terça-feira durante a visita da presidente Dilma a Washington, o Brasil se comprometeu implementar políticas para eliminar o desmatamento ilegal.

O país anunciou também que pretende que sua matriz energética (incluindo biocombustíveis) atinja em 2030 uma participação de 28% a 33% de fontes renováveis, sem contar a geração hidráulica.

A mudança climática vem sendo tratada como um dos principais temas da visita da presidente aos EUA. De acordo com o documento, divulgado durante reunião de trabalho entre Dilma e o presidente Barack Obama, os dois países disseram que pretendem atingir, individualmente, mais de 20% de participação de fontes renováveis, além da geração hidráulica, em suas respectivas matrizes elétricas até 2030.

Em 2012, ultimo ano com dados disponíveis, essa participação era de 12,9% nos EUA e 7,8% no Brasil, sem contar as hidrelétricas.

O Brasil também promete restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. A meta de restauração, no entanto, é inferior ao total de áreas que devem ser recuperadas, de acordo com o Código Florestal.

Em artigo publicado na revista Science em 2014, pesquisadores afirmaram que o “passivo ambiental” do país – total de áreas ilegalmente desmatadas que precisam ser recuperadas – soma 21 milhões de hectares.

Não está claro como a meta de recuperação anunciada no acordo com os EUA se relaciona com a previsão do Código Florestal.

Os presidentes lançaram ainda uma iniciativa conjunta sobre mudança climática, com um grupo de trabalho para ampliar a cooperação bilateral sobre uso da terra e energia limpa.

Emissões de carbono

Os Estados Unidos pressionavam o Brasil a incluir no acordo metas de redução de suas emissões de carbono.

O governo americano já havia incluído o item em acordos com outros países, como a China. O Brasil, porém, preferiu anunciar suas metas mais à frente.

Na próxima cúpula do clima em Paris, em dezembro, espera-se que os países anunciem objetivos globais para a redução das emissões de carbono para frear o aquecimento global.

Ao fechar acertos com outros países antes da conferência, Obama tenta chegar a Paris fortalecido para as negociações. Ele diz que uma das prioridades de sua política externa é conseguir um acordo forte em Paris.

O Brasil, no entanto, reluta em se antecipar à cúpula do clima e se articula com outros países emergentes para a negociação em Paris. No domingo, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, se reuniu em Nova York com representantes da China, da Índia e da África do Sul para discutir suas posições.

Ao fim do encontro, ela disse que os quatro países – membros do bloco Basic, formado em 2009, pouco antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas – levarão a Paris discussões sobre os custos da transição para uma economia menos poluente.

Tradicionalmente, países emergentes cobram o apoio financeiro de nações ricas para alterar suas matrizes energéticas. (Por João Fellet e Alessandra Corrêa/Enviados especiais da BBC Brasil a Washington)

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